sexta-feira, abril 14, 2006

Dos Momentos Elásticos - I

Como pode o ouro ter bolhas,
a euforia e o calor serem amargos,
como pode o amargo me parecer delicioso,
se é gelado e de aroma duvidoso!

Translúcido,
condutor à não-lucidez,
(ou à suprema sinceridade de ser o que se é),
borbulhas de levedo se desprendem do fundo do copo,
orvalho à beira do vidro surgindo gradativamente,
chora o copo e chora o meu peito,
despontam as bolhas como despontam o pensamento
e perdem-se na nuvem branca espumante,
meus pensamentos ecoam pelos céus
e se batem nas nuvens cinza da noite chuvosa.

As gotas se acumulam e descem pelo copo,
mas minhas lágrimas relutam em cair.

Tudo é tão perdido pela madrugada
(e quando o crepúsculo vier,
a sensação de encontro virá,
mas a lembrança de que perdi permanecerá,
ah, eu haverei perdido já alguma vez,
já haverei perdido)
cada gole no copo de cerveja é fugaz,
conduz-me a dúvidas sem resposta,
que nem sei se deveria me perguntar.

As formas diante de mim são nítidas,
contudo meus olhos estão turvos,
meus sentimentos embaçados,
questiono e nego tudo,
o que são as borbulhas no fundo do copo,
o que são as reações químicas que as produzem,
o que são as batidas de violão em mim,
o que é um segundo dentro da minha mão,
se ela se esvai quando escrevo,
como tudo,
e só o nada pode se tornar algo,
e se me esvaio, sou algo,
e se sou algo,
só posso vir a ser nada.

Minutos perdidos em pensamentos sem sentido,
Sentido perdido em minutos sem pensamentos,
Pensamentos perdidos em sentidos sem minutos,
que pararão por algo me interromper --
mais uma batida de violão que não sei o que é.

Nenhum comentário: