Aflição,
não encontro interseção
entre o que sou,
o que acho que sou,
o que acham que sou.
O que soou das minhas palavras,
tão claras,
enturvam o meu eu?
Sou o que penso,
ou penso o que sou,
o que pensam que sou,
ou o que pensam que penso,
o que sei que penso,
penso,
pensando,
sendo,
conflito, aflito,
espelho traçoeiro!
sexta-feira, março 31, 2006
terça-feira, março 28, 2006
Fuga do Escapismo
Seríamos nós grandes escapistas?
Essa pergunta foi lançada numa daquelas discussões de mesa de bar com um amigo, quando anunciei minha vontade de fumar – e nós, fumantes, sabemos que sacar um cigarro da carteira é motivo de ouvir monólogos intermináveis de repúdio ao tabaco. Dessa vez, o cigarro foi só o começo.
Fumar é um escapismo?
Não. Fumo porque quero. Gosto. Não estou fugindo de stress, nem busco consolo com meu Carltonzinho. Aliás, nem sempre. E aí? Mesmo que fumar seja um escapismo às vezes, nem sempre é, não?
Meu amigo afirmou que por mais que eu somente busque o sabor do cigarro, isso já seria um escapismo – fumo porque fujo da ausência dele.
Simplificando: segundo ele, a vida seria um escapismo constante. A água é um escapismo porque há calor, o exercício aeróbico não só é escapismo da gordura, mas da inércia, e, mover o braço, um escapismo do local ocupado anteriormente no espaço.
Não posso negar a coerência de tal perspectiva. Estamos sempre nos desligando de algo, fazendo algo novo, mudando. Contudo, também não posso negar o incômodo de ser chamado de covarde e fujão.
Meu amigo insistiu que não fosse tão literal ao interpretar o termo empregado. Para ele, todos esses “escapes” ocorrem, mas não por fuga covarde. Simplesmente, o escape acontece.
Mas a sensação despertada pelo termo me incomodou. Não quero me sentir fugindo de tudo sempre, mudando por temer ser o mesmo, insatisfeito em viver.
A inconstância do ser humano é um fato – sua essência é inquieta e dialética. No entanto, não me vejo como uma criatura instantânea, uma ameba, um flash de momento!
O homem é um processo construtivo. Minhas cicatrizes nos joelhos das minhas quedas infantis estão ainda aqui. Meus sofrimentos estão guardados para lembrar o que ocorreu. E os momentos felizes, os êxitos, também estão na memória. Para que possa ter vontade de seguir a frente. Para lembrar que não sou só erro. Para mudar para melhor, aperfeiçoar o que já é bom. E escapar da dimensão do gozo, do embevecimento, é um ato de coragem!
Somos mutáveis, sim, totalmente mutáveis. Todavia, não abandonamos o segundo anterior – ele ainda está em nós. Confesso que seria muito mais cômodo encarar cada milésimo de segundo como novidade completa, deixando o que passou para trás. No entanto, se o homem fosse tão simplista, não existiriam memória, escola, escrita, história.
Até o maior dos boêmios se recorda de sua infância, do seu maior porre, daquele amor que lhe jogou no chão dos bares da vida. E se nem mesmo disso se recorde, ele tem um nome, uma idade, um pseudônimo caso louco seja!
Não venha demolir os tijolos da obra que tento tornar minha vida, nem de todos aqueles que lutaram para que hoje o mundo seja como é (por pior que ele nos pareça) – mesmo que meu futuro seja simplório, por menores e curtos que sejam meus planos.
O homem não escapa – ele constrói.
Essa pergunta foi lançada numa daquelas discussões de mesa de bar com um amigo, quando anunciei minha vontade de fumar – e nós, fumantes, sabemos que sacar um cigarro da carteira é motivo de ouvir monólogos intermináveis de repúdio ao tabaco. Dessa vez, o cigarro foi só o começo.
Fumar é um escapismo?
Não. Fumo porque quero. Gosto. Não estou fugindo de stress, nem busco consolo com meu Carltonzinho. Aliás, nem sempre. E aí? Mesmo que fumar seja um escapismo às vezes, nem sempre é, não?
Meu amigo afirmou que por mais que eu somente busque o sabor do cigarro, isso já seria um escapismo – fumo porque fujo da ausência dele.
Simplificando: segundo ele, a vida seria um escapismo constante. A água é um escapismo porque há calor, o exercício aeróbico não só é escapismo da gordura, mas da inércia, e, mover o braço, um escapismo do local ocupado anteriormente no espaço.
Não posso negar a coerência de tal perspectiva. Estamos sempre nos desligando de algo, fazendo algo novo, mudando. Contudo, também não posso negar o incômodo de ser chamado de covarde e fujão.
Meu amigo insistiu que não fosse tão literal ao interpretar o termo empregado. Para ele, todos esses “escapes” ocorrem, mas não por fuga covarde. Simplesmente, o escape acontece.
Mas a sensação despertada pelo termo me incomodou. Não quero me sentir fugindo de tudo sempre, mudando por temer ser o mesmo, insatisfeito em viver.
A inconstância do ser humano é um fato – sua essência é inquieta e dialética. No entanto, não me vejo como uma criatura instantânea, uma ameba, um flash de momento!
O homem é um processo construtivo. Minhas cicatrizes nos joelhos das minhas quedas infantis estão ainda aqui. Meus sofrimentos estão guardados para lembrar o que ocorreu. E os momentos felizes, os êxitos, também estão na memória. Para que possa ter vontade de seguir a frente. Para lembrar que não sou só erro. Para mudar para melhor, aperfeiçoar o que já é bom. E escapar da dimensão do gozo, do embevecimento, é um ato de coragem!
Somos mutáveis, sim, totalmente mutáveis. Todavia, não abandonamos o segundo anterior – ele ainda está em nós. Confesso que seria muito mais cômodo encarar cada milésimo de segundo como novidade completa, deixando o que passou para trás. No entanto, se o homem fosse tão simplista, não existiriam memória, escola, escrita, história.
Até o maior dos boêmios se recorda de sua infância, do seu maior porre, daquele amor que lhe jogou no chão dos bares da vida. E se nem mesmo disso se recorde, ele tem um nome, uma idade, um pseudônimo caso louco seja!
Não venha demolir os tijolos da obra que tento tornar minha vida, nem de todos aqueles que lutaram para que hoje o mundo seja como é (por pior que ele nos pareça) – mesmo que meu futuro seja simplório, por menores e curtos que sejam meus planos.
O homem não escapa – ele constrói.
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