terça-feira, março 28, 2006

Fuga do Escapismo

Seríamos nós grandes escapistas?

Essa pergunta foi lançada numa daquelas discussões de mesa de bar com um amigo, quando anunciei minha vontade de fumar – e nós, fumantes, sabemos que sacar um cigarro da carteira é motivo de ouvir monólogos intermináveis de repúdio ao tabaco. Dessa vez, o cigarro foi só o começo.

Fumar é um escapismo?

Não. Fumo porque quero. Gosto. Não estou fugindo de stress, nem busco consolo com meu Carltonzinho. Aliás, nem sempre. E aí? Mesmo que fumar seja um escapismo às vezes, nem sempre é, não?

Meu amigo afirmou que por mais que eu somente busque o sabor do cigarro, isso já seria um escapismo – fumo porque fujo da ausência dele.

Simplificando: segundo ele, a vida seria um escapismo constante. A água é um escapismo porque há calor, o exercício aeróbico não só é escapismo da gordura, mas da inércia, e, mover o braço, um escapismo do local ocupado anteriormente no espaço.

Não posso negar a coerência de tal perspectiva. Estamos sempre nos desligando de algo, fazendo algo novo, mudando. Contudo, também não posso negar o incômodo de ser chamado de covarde e fujão.

Meu amigo insistiu que não fosse tão literal ao interpretar o termo empregado. Para ele, todos esses “escapes” ocorrem, mas não por fuga covarde. Simplesmente, o escape acontece.

Mas a sensação despertada pelo termo me incomodou. Não quero me sentir fugindo de tudo sempre, mudando por temer ser o mesmo, insatisfeito em viver.

A inconstância do ser humano é um fato – sua essência é inquieta e dialética. No entanto, não me vejo como uma criatura instantânea, uma ameba, um flash de momento!

O homem é um processo construtivo. Minhas cicatrizes nos joelhos das minhas quedas infantis estão ainda aqui. Meus sofrimentos estão guardados para lembrar o que ocorreu. E os momentos felizes, os êxitos, também estão na memória. Para que possa ter vontade de seguir a frente. Para lembrar que não sou só erro. Para mudar para melhor, aperfeiçoar o que já é bom. E escapar da dimensão do gozo, do embevecimento, é um ato de coragem!

Somos mutáveis, sim, totalmente mutáveis. Todavia, não abandonamos o segundo anterior – ele ainda está em nós. Confesso que seria muito mais cômodo encarar cada milésimo de segundo como novidade completa, deixando o que passou para trás. No entanto, se o homem fosse tão simplista, não existiriam memória, escola, escrita, história.

Até o maior dos boêmios se recorda de sua infância, do seu maior porre, daquele amor que lhe jogou no chão dos bares da vida. E se nem mesmo disso se recorde, ele tem um nome, uma idade, um pseudônimo caso louco seja!

Não venha demolir os tijolos da obra que tento tornar minha vida, nem de todos aqueles que lutaram para que hoje o mundo seja como é (por pior que ele nos pareça) – mesmo que meu futuro seja simplório, por menores e curtos que sejam meus planos.

O homem não escapa – ele constrói.

17 comentários:

Anônimo disse...

Bom,muito bom...

Porém,o homem não constroi-se atravéz das suas inconstancias/insatisfações/"escapes"?!?!?!?!

A.M. disse...

Concordo...
O proprio escape eh uma construcao!
Mas a construcao nao eh um escape!

Dan... posta com seu nick!

DanTV disse...

Mas a construção não provém de um escape?!

A.M. disse...

Naooo!
Pra mim o proprio escape acaba por se tornar uma construcao!
Tudo constroi!
No ser humano nao existe abandono de nada!!!!

DanTV disse...

Justamente.

Todavia,ambos complementam-se,melexes.

O escape provém de uma incoformidade,que consequentemente concebe uma ação modificadora, que resulta numa "construção".

Sinto informar que seu texto e sua revolta são frutos da inaceitação do peso da palavra.

~i~i

A.M. disse...

Deixe de ser resistente e releia o texto.

Nao existe escape no ser humano pleno.

Voce nao eh um ponto. Eh uma reta.

Voce nao se move. Se estica.

Se vc ta com calor e se molha, voce nao fugiu do calor. Vc agiu para se esfriar. E a lembranca do calor fica... Ou vc vai esperar ficar quente novamente para se esfriar mas uma vez? Voce pode se manter frio!

=********

Anônimo disse...

"eu fumo porquê é cool"

Eu só queria concordar :)
se amanhã discordar, avisarei.


PS: Daniel está ficando muito previsível. Nem terminei de ler o primeiro comentário e já sabia que era ele.

A.M. disse...

Tai,
Nao entendi nada!

DanTV disse...

Tai: talvez minha previsibilidade seja por conta das minhas marcas lingüisticas...ou pela minhas idéias batidas...(?!)

Xan:
"Se vc ta com calor e se molha, voce nao fugiu do calor. Vc agiu para se esfriar. E a lembranca do calor fica... Ou vc vai esperar ficar quente novamente para se esfriar mas uma vez? Voce pode se manter frio!"

Vc foi se esfriar pq?!"O escape provém de uma incoformidade,que consequentemente concebe uma ação modificadora, que resulta numa "construção"".

Concordo plenamente com o lance da construção...as pessoas retem conhecimentos,passam por apredizados,que,por exemplo,as fazem escolher entre estar no "quente" ou no "frio",por exemplo.

Porém,será que a escolha da permanencia de um estado não seja um "pré-escape"?! "Ah...se o calor não me agrada,então permance-lo-ei no frio..."

DanTV disse...

E outra...

"Estar com calor" + "se molhar" = ação "para se esfriar".

Na pior das hipóteses,não seria uma "fuga"?!

DanTV disse...

"ESCAPISTAS DO MUNDO,UNI-VOS!!!!!!!"

Anônimo disse...

Dan, você e Shan estão falando a mesma coisa, parem de dar murro em ponta de faca!

A ênfase do texto de xan é sobre a CONOTAÇÃO da palavra "fuga", que obviamente nos remete a imagem de covardia, medo, fugir do perigo, e outras coisas mais que você pode ver no aurélio (inclusive).

É lógico que interprentando a palavra "fuga" simplesmente como "mudança", você pode dizer SIM que se molhar ao estar quente é "fugir" do calor, vestir casaco no frio é "fugir" dele, e mudar o braço de lugar é "fugir" do lugar anterior, etc - o "pré-escape" também é válido se você interpreta-çp como "permanência".

O que eu concordo com Xan é que as duas palavras tem conotações completamente diferentes e ESCAPAR não soa nada apropriado pra essas situações. Não é "revolta com o peso da palavra", mas as palavras são diferentes e a gente não precisa carregar "pesos" se não é necessário, né?

Independente disso, a FUGA, sendo "mudança" ou "fuga" mesmo, gera aprendizado e memória, e os dois são construções.
Portanto, uma coisa não exclui a outra!!!

Aliás, cá entre nós, esse negócio de chamar tudo de "escape" soa como uma tentativa besta de fazer uma teoria aparentemente polêmica sem nenhuma utilidade.
Falei.

A.M. disse...

Alguém me entendeu!!!!!!!!
ÊÊÊÊ^^EÊÊÊÊÊÊÊÊÊ^!!!!!!!!

=*********

DanTV disse...

Tá bom então...

Calo-me.

A.M. disse...

HAHAHAHAHAHAHAH

Ganhei! Pã! Pã! Pã!

Scheup!

Obrigado a Taísa Aurélia pelo apoio!

=]

Anônimo disse...

Mané ganhei!!!!!!

Depois fala de mim!

DanTV disse...

tsc tsc tsc...

"perdoai-vos...pois não sabem o que" fazEEEEEEEEEEINNNNNNNNNNNN...